o impulso do voo
uma reflexão curtinha sobre a engenhoca que é a vida na sociedade
Enquanto uma borboleta voa atraída pela luz da tarde, eu me atento a rotatória e a falta de um semáforo. A borboleta amarela me pergunta do outro lado da rua por que estou com uma cara tão estressada, ela não sabe que a rotatória serve como um semáforo dando tempo necessário para o pedestre atravessar a faixa, e também não sabe que na cidade onde moramos as regras de trânsito não são seguidas e a rotatória parece mais uma pista de corrida do que propriamente um circuito de redução de velocidade.
É curioso, penso enquanto não crio coragem de sinalizar com a mão para atravessar, como a vida humana é um pé na bunda. Passamos nosso tempo confiando em regras e de que com estas regras pré-estabelecidas vamos sobreviver a própria cidade. Deixamos de lado o impulso do voo para, assim, equilibrar no nosso corpo uma gestão de fórmulas. Eu só percebo e confio nos meus instintos quando o corpo chega no auge de uma crise?
A borboleta foi embora, não esperou pela resposta. Um motorista conseguiu encontrar os meus olhos e sinaliza para eu atravessar a rua, agradeço com um “jóinha” e ando rapidamente pela faixa, pois minha mente acredita que a rua não é um lugar seguro, voltando enfim para a “segurança” da outra calçada.
Concluo, então, que eu não acredito que meu corpo ou o seu corpo só possam seguir seus instintos quando estão no auge de uma crise. É preciso crer que, para além das fórmulas da cidade, nosso corpo sabe o que faz, da mesma forma que uma borboleta voa, também podemos voar.



